sexta-feira, maio 28, 2010

TEMOS QUE APRENDER A DIZER NÃO À FALTA DE CULTURA!




Há tempos venho boicotando a programação das redes de televisão nacionais, à exceção de alguns telejornais, por conta da péssima qualidade dos programas produzidos, que, cada vez mais privilegiam a falta de cultura, as diferenças sociais e o enquadramento preconceituoso do ser humano em rótulos como brega, rico, pobre, cafona, burro, gostosa, etc.

Ontem, como não prestava muita atenção à televisão, ela acabou ligada na Globo, porque eu, depois de muito tempo, resolvi assistir o programa a Grande Família. Adoro o Pedro Cardoso e o Marco Nanini.

Aí fiquei eu, esperando o programa, de olho na novela Passione. Nota 1000 para Fernanda Montenegro, Tony Ramos e todos aqueles atores maravilhosos que estão na trama. Mas esse não é o foco do post.

Confesso que a curiosidade me motivou, porque há alguns meses, vi em uma revista aqui do bairro que alguns núcleos seriam do Tatuapé, o bairro em que moro.

Assistindo à novela, entretanto, prevalece aquela velha fórmula de novela que se passa em SP: rico mora no Morumbi, pobre mora na Zona Leste e pobre que ficou rico, mora no Tatuapé. 

O rico que mora no Morumbi, mesmo sendo mau caráter, como aparentemente é o personagem vivido por Werner Schunemann (grande ator!), mora em um apê super bem decorado, com as últimas tendências em design, chiquérrimo. Maitê Proença é ninfomaníaca, mas a sua infidelidade é vivida com extremo bom gosto, em tardes agradáveis com mocinhos bonitos no Hotel Emiliano.

Talvez no Emiliano, traição não seja traição. E talvez no Morumbi, as desonestidades sejam apenas ossos do ofício.

O núcleo da família pobre que ficou rica, cujo patriarca é Francisco Cuoco, mora no Tatuapé e tem uma casa decorada com o fino do mau gosto: sanca de gesso colorida, um sem número de objetos feios,  roupas horrorosas e maus modos. Aliás, a depreciação vem também na forma jocosa com que é tratado o ganha pão da família (reciclagem de lixo) e na educação da personagem de Gabriela Duarte (uma inútil casada com um italiano michê disfarçado de marido). Nem a mulher do cara pode prestar, é uma secretária que deu o golpe do baú. Tudo desfilado em sets de extremo mau gosto.

Enquanto isso, os "filhos" do núcleo rico voltam dos estudos em Paris, são ciclistas, pilotos de competições, etc.

E veja que mesmo pobre do Morumbi, filho do chofer dos ricos, interpretado pelo marido da Maya na outra novela (ah, sei lá o nome dele, um bonitão qualquer) teve mais oportunidade: é executivo na empresa do núcleo rico e disputa a namorada com o filho da patroa.

Já os filhos de pobre, mesmo da Vera Holtz, cujo personagem "rala prá caramba", não têm jeito, ou viram subalternos ou trambiqueiros. Já mencionei também o caso da personagem da Gabriela Duarte, cujo dinheiro não comprou cultura. O núcleo pobre da novela que vive no Tatuapé e adjacências, tem cafetina e trambiqueiros (Daisy Lúcidi, Reinaldo Gianechinni e Mariana Ximenes), cujas casas, claro, encerram que é impossível pobre ter bom gosto.

Por que isso? Será que alguém que não nasceu rico, mas ficou depois, não pode desenvolver o gosto por ambientes bem decorados, peças de design e tendências de moda???

Por que filho de pobre que ficou rico não pode ter capacidade para também buscar estudo fora do País, ter gosto por esportes e capacidade para ocupar um bom cargo em uma empresa qualquer?

Conheço centenas de "pobres" da Zona Leste que hoje têm cargos importantes, de direção, em empresas expressivas na economia do país.

"Pobres" da zona leste que investiram cada centavo que ganharam para proporcionar aos filhos estudo e cultura, reconhecendo isso como os únicos elementos transformadores do ser humano e da sociedade.

Filhos de "pobres" que ficaram ricos e que também aprenderam que o estudo é sempre a melhor opção, seja no país ou fora dele.

Ah, e também essas pessoas aprendem a desenvolver o gosto pelo bom, sabem apreciar tendências de moda e design. Também podem ter casa bonita. O bom gosto não é limitado pelo dinheiro que temos no bolso, apenas o nosso poder de compra.

E também conheci rico de berço do Morumbi que detonou o dinheiro da família, não concluiu os estudos, seja aqui ou em Paris e vive de golpes e trambiques em geral. Tem rico que fica pobre também.

E tem pobre que apenas aparenta ser rico, às custas de imóveis penhorados por dívidas, não pagando os funcionários da empresa que gerencia, andando em carros com ordem de busca e apreensão e se fazendo passar pelo que não é. Mas mora no Morumbi.

Na novela do Silvio de Abreu, entretanto, as safadezas dos ricos podem ser em ambientes de extremo apuro. Já a dos pobres, tem como pano de fundo os lugares mais sórdidos da novela.

Por que as novelas do Silvio de Abreu nunca retratam o contrário? Convido todos a fazerem essa retrospectiva e lembrarem das novelas que o autor escreveu ao longo dos anos e verificar o comodismo dos personagens rotulados.

Que tal se a televisão invertesse as coisas apenas um pouco?

Já que a televisão está presente em 90% dos lares brasileiros, seria útil inverter essa realidade apenas um pouco, apenas o suficiente para ensinar ao País inteiro que com estudo, condições dignas de moradia, trabalho regularizado e legal, segurança e saúde, TODOS, do extremo sul ao extremo norte, podem ter acesso aos bens de consumo e a tudo que apenas os "ricos do Silvio de Abreu" têm. 

Aí, me pergunto, se até eu, uma filha de "pobres" que ensinaram ser a cultura o bem mais valioso da vida, posso raciocinar e compreender isso, porque um escritor de novelas midiático não pode???

Ah, ele pode! Mas talvez seja interessante manter mesmo um exército de ignorantes, para continuar elegendo os mesmos corruptos de sempre e assistindo os mesmos programas sem qualidade de outrora.

O trabalho é menor: basta apenas mudar os nomes, mas os personagens são sempre os mesmos de outras estórias já contadas.

Minha indignação. Não sou fã de novelas, não sou fã de Silvio de Abreu. Não sou fã de quem não tem nada de novo a ensinar.


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