quinta-feira, setembro 13, 2012

Casa de família...





Hoje recebi um e-mail inusitado:

"Oi, Adriana, tudo bem? Meu nome é Lucy e moro em um imóvel da família do meu marido há 10 anos. Nunca fizemos nenhuma manutenção, meu sogro se encarrega de tudo e nós combinamos um aluguel com ele, embora eu reconheça que pagamos quando e se queremos e muitas vezes não pagamos nada. Nossa intenção é comprar a parte das irmãs dele no imóvel quando meus sogros morrerem, temos uma situação tranquila, ambos trabalhamos, mas queria fazer uma reforma, adaptar a cozinha, fazer mais um banheiro, enfim, deixar mais com a nossa cara. Tenho medo de investir e depois termos algum problema com as irmãs que vivem falando que estamos pendurados nos pais dele. Sei que você é advogada também e queria saber o que e como posso fazer para não ter problemas futuros. Obrigada. Beijos"


É claro que já estou acostumada com perguntas referentes às duas profissões, que sempre começam com "vou aproveitar que você é (designer, advogada) e tirar uma dúvida...". Mas fiquei surpresa com esse e-mail, pela naturalidade e sinceridade com que foi escrito.

Bom, a Lucy me fez perguntas sobre design, jurídicas e também vou tomar a liberdade para colocar algumas considerações, digamos, psicológicas... 

Então, vou começar perguntando para a Lucy (omiti o sobrenome e a cidade, tá??) o seguinte: Por que você mora no imóvel da família há 10 anos? Pelo que mencionou no e-mail, ambos trabalham, tem uma boa situação financeira e na foto que você me mandou vi um carro bacana na garagem.  

Eu entendo que o começo de casado é complicado e que os pais ou avós sempre que possível dão um help para os filhos, cedendo um imóvel da família ou até acolhendo-os em sua própria casa. Mas muita gente se acomoda e não parte para construir seu próprio ninho. 10 anos é muito tempo! 

Eu também morei durante quase três anos em um imóvel da família. E sempre tivemos em mente - meu marido e eu - que aquela era uma situação transitória. No final do primeiro ano de casados, partimos para a compra de um imóvel em construção, financiado, porque queríamos ter uma casa nossa. A duras penas, pagamos o financiamento por anos e anos, deixando muitos outros prazeres consumistas de lado, para chegar nesse objetivo.

Embora meu avô se recusasse a receber o aluguel, fazíamos as manutenções da casa,  comprávamos o que eles precisavam e ao sairmos, deixamos a casa mobiliada, com tudo praticamente novo, para o uso deles.

Mas será mesmo que nesses 10 anos você não teve oportunidade de partir para um imóvel seu? Creio que sim, muitas vezes. Mas é provável que tenha se acomodado à facilidade e à flexibilidade de pagar o aluguel quando quer. O ideal é aproveitar esse "amparo" dos pais para partir para algo de vocês. 

Se você pretende comprar a parte das irmãs de seu marido, é porque quer um imóvel próprio, correto? Já juntou dinheiro para isso ou apenas gastou os rendimentos extras? Sim, porque a morte deles pode acontecer daqui a 50 anos ou amanhã... E nenhum herdeiro espera o outro fazer poupança, viu?

Já parou para pensar que as irmãs podem não querer vender e que podem exigir a sua saída? Mais ainda, já parou para pensar que alguma doença na família possa demandar a venda do imóvel e que seus sogros podem desejar vendê-lo e usufruir do valor para cuidar de sua própria saúde?

Portanto, o meu conselho como advogada, como designer e como amiga é: não conte com ovo antes da galinha botar. Se você quer comprar algo, procure um imóvel na sua cidade, venda seu carro, dê como entrada no negócio, informe-se sobre os financiamentos disponíveis, faça sacrifícios, planeje-se e compre o seu imóvel, qualquer imóvel, menos esse. 

Não condicione o seu sonho da casa própria à morte dos sogros, à vontade das cunhadas e a uma herança que pode nem existir. Condicione somente à sua capacidade e a de seu marido. Você verá que as coisas dão super certo assim.

Quanto às reformas na casa, faça aquelas que aproveitam a você, ao seu bem estar e de sua família. Pintura, limpeza e reparo das coisas que desgastam pelo uso são obrigações de qualquer inquilino, faça-as. Já as reformas que incorporam valor ao imóvel, combine com os seus sogros e assuma-as a troco do aluguel. 

E pague, sim, o aluguel aos seus sogros, religiosamente. Seja independente. Não dependa de ninguém.

Esse é o melhor meio de se resguardar e evitar problemas, inclusive os comentários chatos que você mencionou no seu e-mail.

Boa sorte.























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